
O sobreiro, que Lineu baptizou com o nome latino Quercus Suber L. , é uma árvore muito antiga (supõe-se que existiu há 30 milhões de anos), da qual existem inúmeros testemunhos fósseis referenciados. É a única espécie florestal do mundo produtora de cortiça com capacidade para utilização industrial, pois todas as outras produzem cortiça (ou tecido suberoso) mas com características diferentes. O sobreiro pertence à ordem das Fagales, família das Fagáceas, género Quercus, sendo a espécie Quercus Suber . É também conhecido por chaparro, quando jovem ou por sobro, quando conduzido em montado. É uma espécie de crescimento lento e de grande longevidade. O tempo médio de vida oscila entre os 170-200 anos, podendo no entanto atingir os 300 anos ou mais.
O sobreiro cresce sobretudo na zona Mediterrânea, com influência do Atlântico (Portugal, Espanha, Argélia, Marrocos, Tunísia, Itália e França), e Portugal produz mais de metade da cortiça produzida a nível mundial. É a segunda espécie florestal mais representada no nosso país, a seguir ao pinheiro bravo, localizando-se os seus principais povoamentos no sul do país.
É uma árvore que sobrevive à extracção regular da camada externa de casca que, quando bem efectuada, não prejudica a árvore. O descortiçamento só é possível, desde que as árvores atinjam determinadas proporções, definidas por lei em cada país produtor. Em Portugal, o descortiçamento só pode ser feito de 9 em 9 anos e quando o Sobreiro apresenta um perímetro de tronco superior a 70 cm (medido a 1,30 m de altura). O período ideal para a extracção é entre o início de Junho e o final de Agosto, quando a produção de células está na sua fase mais activa e as novas células podem ser quebradas mais facilmente.
A primeira extracção de cortiça ocorre, normalmente, quando a árvore atinge entre 25 e 30 anos. Essa cortiça, recebe o nome de cortiça virgem e distingue-se substancialmente da cortiça de reprodução , extraída nos períodos seguintes (normalmente de 9 ou 10 anos) e que é designada por secundeira na segunda tiragem e por amadia nas tiragens ou extracções subsequentes. É a cortiça amadia, que constitui a base da transformação industrial, pelo que é preciso cuidar cerca de 40 anos antes que sejam produzidas rolhas de cortiça natural.
Sendo uma árvore legalmente protegida e controlada, o abate de sobreiros é proibido, sendo apenas possível em situações muito específicas.
Foi Robert Hooke (1635-1703) quem primeiro observou ao microscópio a cortiça (1664). Foi com base nestas primeiras observações da cortiça que identificou as unidades básicas estruturais biológicas que designou por "células". Deste modo, a cortiça ocupa um lugar de relevo na história da microscopia vegetal.
O tecido celular que constitui a cortiça é formado por células poliédricas em camadas sucessivas. É um tecido sem vida, uma vez que o conteúdo celular é consumido no processo de crescimento e posterior suberificação. As células encerram no seu interior uma quantidade mínima de cristais de cerina e de material amorfo aderido às paredes, e uma grande quantidade de gás. As células de cortiça têm o formato de um prisma hexagonal, estando empilhadas lateralmente de modo que cada célula está em contacto com 14 células vizinhas.
A composição química da cortiça não é ainda totalmente conhecida. Diferentes autores apresentam uma ampla variação de valores devido ao uso de diferentes amostras de cortiça, pois a constituição química deste material natural depende de vários factores tais como a origem geográfica, as condições de solo e clima, a origem genética, a dimensão e idade da árvore, condições de crescimento, ...
Os principais constituintes químicos da cortiça são divididos da seguinte forma:
Suberina (45%) - principal componente das paredes das células, responsável pela elasticidade da Cortiça
Lenhina (27%) - composto isolante
Celulose e Polissacarideos (12%) - componentes das paredes das células que ajudam a definir a textura da cortiça
Taninos (6%) - compostos polifenólicos responsáveis pela cor
Ceróides (5%) - compostos hidrofóbicos que asseguram a impermeabilidade da cortiça
Cinza e outros produtos (5%)
As suas propriedades são inúmeras, destacando-se entre elas as seguintes:
a leveza (contém 90% de ar encerrado em células impermeáveis e cada cm 3 contém cerca de 40 milhões de células) que lhe confere a tão conhecida flutuabilidade ;
a elasticidade (recupera o seu volume inicial em 90% em menos de 24 horas), a compressibilidade e a impermeabilidade (a gases e líquidos), que justificam o seu emprego na indústria de rolhas e que se deve à presença de suberina e à grande flexibilidade das membranas celulares;
a eficiência isoladora do ponto de vista acústico, térmico e vibrático, que se deve ao facto do ar se encontrar encerrado em minúsculos compartimentos estanques, isolados por uma material de baixa densidade e não higroscópio.
Além disso, a cortiça possui ainda muitas outras propriedades que a diferenciam enquanto matéria-prima: é inodora , conserva a sua eficiência indefinidamente, é um retardador de combustão, é compacta e resistente e pode considerar-se imputrescível e inalterável.
A rolha de cortiça é a única que tem uma relação com o vinho que vai além da simples vedação. Permite que se façam trocas de ar, permitindo assim que o vinho respire e envelheça com as qualidades pretendidas.
Por outro lado, o coeficiente de fricção da cortiça, sendo muito elevado, proporciona-lhe uma forte capacidade de aderência ao vidro que, no caso das rolhas fortemente comprimidas no gargalo das garrafas, é acentuado devido à sua força elástica de expansão, mas também às numerosas células cortadas do tecido suberoso que se comportam como autênticas ventosas microscópicas.